Somos idólatras ou leitores? Ambos, impossível.
Recentemente, vi uma produção jornalística em que
jovens gritavam e choravam idolatrando uma escritora, como fazem com
pop-stars. No âmbito literário ou pedagógico nunca ouvira falar desta
personagem.
O que me causou profunda estranheza foi o fato de dirigirem-se à autora e
não aos seus livros. Mais estranho ainda foi uma declaração da própria
escritora sobre qual a pergunta que suas fãs mais lhe fazem: “Como você se maquia?”. Isto me deixou curiosa para entender o fenômeno que me parecia sem lógica. Resolvi ler.
Ao ler seus textos, não constatei razões para as cenas de idolatria
histérica que vi na “reportagem”. Chego a esta conclusão baseada em
vasta experiência com crianças, adolescentes e jovens de diferentes
condições sociais. Esta experiência inclui convivência intensa com os
resultados das variadas formas de educação e influências que recebem de
seus pais. Independente do conteúdo fraco, lê-se, por página, mais de
uma palavra “difícil” para esse público, a exemplificar: abdicar;
presumir; franzino; profusão; protagonizara; dileta; ruborizava. Quem
conhece esta faixa etária sabe que assim não se chega mesmo à aquela
idolatria. Soma-se a isto o fato de que não consegui encontrar fóruns de
discussões sobre tais livros, nem nos sites de relacionamento, tão
curtidos nesta idade. Então, fica difícil crer que é “leitura” o que faz
este ídolo. É preciso saber como este fenômeno começou para entendê-lo.
A história de vida da escritora é de uma mulher formada em Comunicação
Social, jornalismo, experiente assessora de imprensa, portanto, alguém
com penetração em veículos jornalísticos e profunda conhecedora dos
mecanismos mais eficientes da divulgação de produtos para venda. Então, é
preparadíssima para explorar, a seu favor, toda esta bagagem, fazendo
uso da intimidade que tem com os canais de comunicação. A história da
primeira das reportagens veiculadas chama a atenção de alguém um pouco
mais crítico: ocorreu, literalmente, com a autora pedindo atenção aos
berros em plena Bienal, fazendo um show em cima de uma cadeira,
aglomerando algumas crianças e adolescentes, arrancando gargalhadas com
piadas divertidas e, claro, oferecendo doces. Agora sim me aparecia um
evento compatível com algo que leva a idolatria. Exímia e divertida
comunicadora, encanta, atrai e faz contatos diretos com seus, segundo
ela mesma, fãs. Em seu site, inicia "Quem sou", assim: "Sou
fofa". Beija livros efusivamente em exposições, aparece em programas
televisivos, até de futebol, e diz ter vendido um milhão de livros. Isso mesmo, um milhão de livros.
A mim, descortinou-se uma estratégia de marketing claramente compatível
com literatura de consumo, mas, tendo o triste diferencial da lisura
questionável. Senão, recapitulemos. Devido ao trânsito fácil e de longa
data que a autora tem no meio jornalístico, conseguiu veiculações de
reportagens mostrando cenas de crianças e adolescentes que, de tão
apaixonados por ler seus livros, a idolatram, emitindo gritos
histéricos. Na verdade, o aglomerado mostrado na reportagem veio após
gritos histéricos da autora, seguidos por um show divertidíssimo de uma
experiente comunicadora e distribuição de doces. Cenas assim, atraem
pais que desejam ver seus filhos gostando de ler, preferencialmente, da
forma que der menos trabalho. Assim, são eles, os pais, que vão às
livrarias e trazem o produto para casa. Acham o conteúdo aceitável, até
porque traz palavras mais elaboradas que o vocabulário do filho. A
título de despertar o interesse para leitura, passam o produto para a
criança/adolescente com a informação de que é um sucesso entre os outros
da mesma faixa etária. Por fim, para sustentar a existência do fenômeno
artificial, retroalimentando a fantasia de sucesso estrondoso,
divulga-se um número de livros vendidos que se vê tão irreal quanto
crianças e adolescentes idolatrando uma pessoa por causa do que ela
escreve.
Recentemente, conheci uma menina, tinha seus 12 anos, que passou por
este exato processo, dizia adorar a autora e ter lido todos os seus
livros. Perguntei-lhe sobre o quê eram os livros e não obtive nenhuma
resposta. Depois de alguma insistência, ela disse que na verdade tinha
lido 3 livros. Mas, soube falar apenas uma frase sobre um único deles.
Sabemos que, nesta idade, as crianças habitualmente reproduzem as falas
dos pais, seus modelos, seguindo-os, buscando sua aprovação, o que as
torna úteis como boas reforçadoras da artimanha toda, manipuláveis via
pais. Nesta mesma linha de eventos, encontra-se depoimento de jovem que
diz gostar dos livros da autora porque "odeia ler livros que não
entende, como o tal do “imortal do Machado de Assis””. Faz pensar.
Harry Potter, indubitável sucesso mundial de estímulo a leitura
infanto-juvenil, não tem uma autora idolatrada. Seu nome, mal é
conhecido entre os leitores, fãs do protagonista das histórias. E
formam-se filas nas livrarias a cada novo lançamento. Filas em busca dos livros,
estas sim, dignas de reportagens legítimas. Os leitores carregam
figuras do personagem, a maioria absoluta deles, sem o menor interesse
em ver a face da escritora ou saber pronunciar seu nome, quanto mais
saber como se maquia.
É preciso muita atenção e espírito crítico para perceber que os números
divulgados também são, no mínimo, bizarros. Considerando analfabetismo,
inclusive funcional e fazendo algumas continhas com o número de livros
que divulga vendidos e de brasileiros na faixa etária de seu público,
chegamos a conclusão que a autora afirma ter vendido, em média, um livro
para cada 13 crianças/adolescentes. Como seu público é feminino,
podemos concluir que divulga-se a venda, em média, de um livro a cada 6
ou 7 meninas brasileiras. Para entender o absurdo disto, saibamos que,
fazendo as mesmas continhas, se vendeu um livro do Paulo Coelho para
cada 32 adultos brasileiros. E como no Brasil não há controle algum
sobre a quantidade de livros que uma editora vende, também não há como
desmascarar, com provas, qualquer fraude no que se “diz” ter vendido.
Resta recorrer à leitura, de novo. Por exemplo, do site da Publishnews,
que traz as principais notícias do mercado editorial brasileiro. Neste
veículo, divulgam-se os resultados das somas das vendas de mais de uma
centena das principais redes de livrarias do país. Segundo estes dados, o
livro infanto-juvenil mais vendido no Brasil, este ano, até agora, foi
“O pequeno príncipe”, de Exupèry, tendo comercializado pouco mais de 61 mil
exemplares. Esta colocação aparece na lista dos primeiros 20 livros
infanto-juvenis mais vendidos, sendo que o último deste elenco vendeu
pouco mais de 6 mil exemplares. Nenhum dos livros da autora aparece
nesta lista dos 20 mais vendidos no Brasil. O que nos faz entender que
nas maiores livrarias do Brasil, se a autora vendeu livros em 2011, foi
uma quantidade inferior a 6 mil exemplares. Cada um que faça seu
julgamento sobre esta análise e a veracidade das informações usadas como
tática de vendas neste caso. Cada pai que pense no papel que faz neste
quadro e que reflita se, realmente, seu filho odeia tanto ler ao ponto
de precisar ter um produto vindo de vendas feitas desta forma para ser
um leitor.
Tudo isto provoca a reflexão sobre o que, efetivamente, é necessário
para que nossos jovens brasileiros gostem de ler.
Por...
Maristela
Zamoner, mestre em Ciências Biológicas pela UFPR, especialista em
Educação, concentração em meio ambiente, bióloga, com registro
profissional no CRBio sob número 50.002/07. Recebeu diversos prêmios,
publicou mais de trinta trabalhos científicos e seis livros. É
professora universitária, atuando em cursos de graduação e
pós-graduação.